Andorinha, Alma lusa em ave negra…

ANDORINHA Bordalo Pinheiro

 

Se tivéssemos de escolher um símbolo para Portugal, o que escolheríamos? Uma caravela? O galo de Barcelos? As quinas? Os corvos de São Vicente? Um barrete de campino? Não seria fácil… E que tal uma andorinha? Pense nisso, caro leitor. Concordo que não tem a força do leão britânico, a altivez da águia americana, o mistério do dragão chinês ou a imponência do urso russo. Mas tem aquele mimo, aquela graça, aquele carinho tão portugueses que nos lembra a primavera, o sol que regressa, a fidelidade e o aconchego do ninho caseiro. Afinal, não escreveu Pessoa: Andorinha que vais alta, / Porque não me vens trazer / Qualquer coisa que me falta / E que te não sei dizer?

 

Estes versos tão resultam tão bem com dragões ou com ursos, pois não?

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E quantos fados se escreveram onde elas surgem, desde Amália a Carlos do Carmo? Há, naquela ave, a ternura que gostamos de ver associada à nossa gente, um saudosismo que nos percorre desde sempre e um negro brilhante que tanto pode ser mágoa como dó. Pois prossigamos com a andorinha, um símbolo bem nosso, tanta vez posto em louça debaixo dos beirais.

 

Todavia, este objeto é relativamente recente. O seu autor foi o já citado Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905), um dos génios maiores das artes e das letras nacionais, tantas vezes esquecido, tanta vezes apenas associado a essa figura de bonomia e lhaneza que é o Zé Povinho. Bordalo, contudo, foi muito mais do que isso. Foi, como bem disse José Augusto-França, o português tal e qual; foi o desenhador, o ceramista, o jornalista, o escritor, o homem de arte que melhor compreendeu os seus compatriotas. Ler os seus jornais (O António Maria, Os Pontos nos Iis, A Paródia) é vermo-nos inteirinhos, apesar de mais um século se ter já passado sobre aqueles portugueses que ele retrata e ilustra.

 

Foi em 1891 que Bordalo moldou em cerâmica algumas andorinhas. Gostou muito. Engodado pela sua criação, e sempre de olho vivo para aquilo que poderia representar de a alma da nossa gente, o mestre usou a sua fábrica nas Caldas da Rainha (Fábrica de Louça das Caldas) para produzir as ditas andorinhas. Soltou-as assim em pratos, em azulejos ou como pecinhas isoladas para ficarem suspensas nas paredes das casas. O objeto pegou de estaca, como sucede com as coisas realmente boas. Aquela singela, valente e leal ave, cujo nome em diminutivo ainda mais portuguesinha a torna, conquistou o coração de todos nós. Como os nossos sonhos e como os nossos queridos ausentes, a andorinha regressa sempre a casa a cada primavera.

 

Um grupo de andorinhas de cerâmica, saídas das mãos de Bordalo, passaram então a residir no teto da Tabacaria Mónaco, em Lisboa. Fizeram sucesso. Aliás, ainda lá estão. Então, Bordalo compreendeu. Em 1896 registou a patente das suas andorinhas de cerâmica, consciente de que estava a criar um ícone. E a partir daí e até hoje, não deixaram de ser feitas, de ser vendidas e de ornar as casas de muitos de nós, segundo os moldes originais da Fábrica de Louças das Caldas. Aliás, se o leitor percorrer cidades e vilas estrangeiras e encontrar, num qualquer rincão distante, um par de andorinhas de cerâmica a orlar a porta de uma moradia, não há que enganar. Naquela casa mora um coração português… Talvez ao lado de uns azulejos que nos garantem ser bemvindo quem vier por bem, ou de uma quadra de bom autor. Como esta outra, ainda de Pessoa: Andorinha que passaste, / Quem é que te esperaria? / Só quem te visse passar / E esperasse no outro dia.

 

 

Fonte: Sérgio Luís de Carvalho, A História de Portugal em 40 Objectos, Lisboa, Planeta, 2017